Especial | Apuração encerrada em 20 de setembro de 2026

A eleição presidencial de 2026 coloca diante do eleitor uma escolha que ultrapassa a preferência por um nome: qual deve ser o papel do governo na economia, na proteção das famílias e no enfrentamento da violência? Os programas de Renan Santos (Missão), Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Augusto Cury (Avante), Romeu Zema (Novo), Ronaldo Caiado (PSD) e Flávio Bolsonaro (PL) oferecem respostas diferentes, inclusive entre candidatos que disputam espaço no mesmo campo político.

Este especial compara os seis nomes em oito áreas, a partir dos programas apresentados para a eleição de 2026. Os quadros resumem compromissos das candidaturas; a parte final examina suas implicações e condições de execução. Metas anunciadas não equivalem a resultados comprovados, e propostas que ultrapassam quatro anos dependem de continuidade administrativa.

O país que o próximo presidente encontrará combina avanços recentes com dificuldades persistentes. Reconhecer os dois lados desse quadro é indispensável para avaliar tanto as promessas de continuidade quanto as de mudança.

O Brasil que as propostas precisam enfrentar

Emprego melhorou, mas renda e proteção continuam no centro do debate. Segundo dados da PNAD Contínua do IBGE, divulgados pela Agência Brasil, a taxa de desemprego ficou em 5,3% no trimestre encerrado em julho de 2026, o menor nível para esse período na série histórica. Ao mesmo tempo, 37,5% dos ocupados estavam na informalidade. Isso muda a pergunta eleitoral: além de criar vagas, é preciso discutir produtividade, remuneração e acesso à proteção social. Um trabalho que gera renda hoje pode não assegurar cobertura previdenciária ou estabilidade amanhã.

Inflação menor não apaga o custo de vida acumulado. De acordo com dados do IBGE publicados pela Agência Brasil, o IPCA caiu 0,32% em agosto, mas acumulou alta de 4,22% em 12 meses. A redução mensal, influenciada pelo bônus de Itaipu e por alimentos e transportes, não significa que todos os preços voltaram aos níveis anteriores. Para as famílias, a melhora depende da relação entre renda, despesas essenciais e dívidas. Já a pobreza atingia 23,1% da população em 2024, contra 27,3% em 2023, segundo a Síntese de Indicadores Sociais do IBGE, divulgada em dezembro de 2025 e reproduzida pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social — uma melhora que ainda deixa uma parcela expressiva da população vulnerável.

O orçamento impõe limites a todas as candidaturas. A dívida bruta do governo geral chegou a 82,5% do PIB em julho de 2026, conforme os dados do Banco Central reunidos pelo Banco do Nordeste. Esse indicador não torna inviável todo novo investimento, mas exige demonstrar como despesas permanentes e reduções de impostos serão financiadas. Economias administrativas, crescimento futuro e receitas de privatizações precisam ser apresentados com valores, prazos e hipóteses verificáveis.

A violência caiu no agregado, mas continua grave e desigual. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, registrou 40.775 mortes violentas intencionais em 2025, queda de 8,2% sobre 2024. No mesmo período, os feminicídios aumentaram 4%, para 1.571 vítimas. Portanto, uma política de segurança precisa enfrentar tanto organizações criminosas quanto a violência doméstica. O desempenho deve ser medido por vidas protegidas e crimes esclarecidos, com controle da atuação estatal, e não apenas pelo número de operações ou prisões.

Educação e saúde exigem qualidade e acesso efetivo. O Indicador Criança Alfabetizada passou de 56% em 2023 para 66% em 2025, segundo o Inep. O avanço ainda deixa cerca de um terço dos estudantes avaliados abaixo do padrão esperado ao final do segundo ano. Na saúde, a ampliação do acesso a especialistas permanece um problema reconhecido pelo próprio Ministério da Saúde. Mais vagas escolares e consultas são relevantes, mas precisam resultar em aprendizagem, diagnóstico oportuno e continuidade do tratamento.

Moradia, saneamento e clima fazem parte da mesma agenda. O relatório do Cemaden sobre 2025 reúne os impactos de chuvas extremas, secas e ondas de calor. Para avaliar os planos, isso significa olhar além da quantidade de obras: onde serão construídas, quem terá acesso, como serão mantidas e se resistirão a eventos extremos. Habitação distante de emprego e transporte pode ampliar vulnerabilidades; prevenção de desastres precisa entrar no orçamento antes da emergência.

As propostas, candidato por candidato

Os oito tópicos abaixo seguem a mesma ordem em todos os quadros. A sequência dos candidatos é editorial e não representa classificação eleitoral ou avaliação de desempenho.

Renan Santos — Missão

Renan Santos no Marco Zero, em Recife, em fotografia de arquivo.
Foto de arquivo: Romerito Pontes. Origem: rede social Flickr, via Wikimedia Commons. Recorte do acervo, reproduzido em tamanho reduzido. Licença: CC BY 4.0.
Economia e contas públicas: Propõe desvincular benefícios do reajuste do salário mínimo, preservando correção inflacionária, e alterar pisos de saúde e educação. Estima ajuste de R$ 1,1 trilhão até 2031.
Trabalho e proteção social: Substituir o Bolsa Família por Frentes Cidadãs, com trabalho comunitário remunerado e inserção produtiva.
Segurança: Retomar territórios dominados por facções usando GLO e estado de defesa; adotar o chamado Direito Penal do Inimigo.
Saúde: Ordenar filas pela gravidade clínica e ampliar telemedicina e diagnósticos apoiados por inteligência artificial.
Educação: Alfabetização fônica, disciplina e escolas cívico-militares; abolir cotas e substituir a autonomia universitária por alinhamento estratégico.
Infraestrutura e moradia: Ampliar ferrovias e transformar favelas em bairros formalizados em dez anos, com propriedade individual e serviços públicos.
Meio ambiente e energia: Simplificar licenciamento e desenvolver cadeias de minerais críticos e terras raras, associadas à industrialização.
Estado e relações exteriores: Consolidar municípios, ampliar supervisão federal e buscar liderança sul-americana, com atuação pragmática no Brics.

Fonte: Programa de 2026, 51 páginas: capítulos I, II, III, IV, V, VI, VII, IX, XI, XIII e XIV.

Lula — PT

Retrato oficial de Luiz Inácio Lula da Silva, de 2023.
Foto de arquivo (16/02/2023): Ricardo Stuckert/Presidência da República. Origem: rede social Flickr, via Wikimedia Commons. Recorte do acervo, reproduzido em tamanho reduzido. Licença: CC BY 2.0.
Economia e contas públicas: Manter o arcabouço fiscal, estimular a indústria e a inovação, melhorar a qualidade do gasto e ampliar a justiça tributária.
Trabalho e proteção social: Valorizar o salário mínimo, combater a pobreza e proteger trabalhadores de plataformas. Defende jornada de 40 horas e fim da escala 6×1, sem redução salarial.
Segurança: Criar Ministério da Segurança Pública e integrar forças, inteligência e combate às finanças das facções e milícias.
Saúde: Ampliar a rede de cuidado ao câncer e incluir exames no Farmácia Popular, fortalecendo o SUS.
Educação: Expandir creches, tempo integral, institutos federais e oportunidades no ensino técnico e superior.
Infraestrutura e moradia: Dar continuidade ao Minha Casa Minha Vida e a investimentos em saneamento, mobilidade e infraestrutura urbana.
Meio ambiente e energia: Buscar desmatamento líquido zero até 2030 e ampliar renováveis; também prevê novos investimentos da Petrobras em petróleo e gás.
Estado e relações exteriores: Fortalecer transparência, planejamento estatal, soberania, Mercosul e integração sul-americana.

Fonte: Programa de 2026, 84 páginas: eixos 1 a 5 e 7 a 13.

Augusto Cury — Avante

Augusto Cury em fotografia de arquivo, de 2008.
Foto de arquivo (06/10/2008): Lima Andruška. Origem: rede social Flickr, via Wikimedia Commons. Recorte do acervo, reproduzido em tamanho reduzido. Licença: CC BY-SA 2.0.
Economia e contas públicas: Simplificar tributos e estruturas administrativas; incentivar empreendedorismo, cooperativismo e crédito, com compromisso de equilíbrio fiscal.
Trabalho e proteção social: Combinar benefícios com qualificação e empreendedorismo; permitir manutenção temporária do Bolsa Família após emprego formal ou abertura de negócio.
Segurança: Integrar inteligência e forças policiais pelo projeto FATO; criar forças municipais de apoio e reforçar prevenção e proteção às mulheres.
Saúde: Expandir telemedicina, prevenção e diagnóstico precoce do câncer, com atenção à saúde emocional.
Educação: Incorporar gestão da emoção às escolas, formar professores e ampliar inclusão de estudantes neurodivergentes.
Infraestrutura e moradia: Regularizar moradias e melhorar comunidades, articulando urbanização, pequenos negócios e desenvolvimento do semiárido.
Meio ambiente e energia: Buscar 90% de matriz energética limpa até 2040; incentivar renováveis, reflorestamento e processamento nacional de minerais estratégicos.
Estado e relações exteriores: Adotar semipresidencialismo; reduzir o STF a nove integrantes, com mandatos de oito anos e escolha pelas classes jurídicas. Propõe embaixadas voltadas à expansão comercial.

Fonte: Programa de 2026, 200 páginas: diretrizes temáticas, três grandes reformas e projetos setoriais.

Romeu Zema — Novo

Romeu Zema em evento em São Paulo, em setembro de 2025.
Foto de arquivo (22/09/2025): Paulo Guereta/Governo do Estado de São Paulo. Origem: rede social Flickr, via Wikimedia Commons. Recorte do acervo, reproduzido em tamanho reduzido. Licença: CC BY 4.0.
Economia e contas públicas: Privatizar estatais, reformar a Previdência, conter despesas obrigatórias e reduzir tributos, buscando queda sustentável dos juros.
Trabalho e proteção social: Criar contratação alternativa à CLT; vincular permanência de adultos aptos no Bolsa Família à busca de emprego ou qualificação, com exceções para cuidadores; premiar saída por renda com R$ 5 mil.
Segurança: Classificar facções como terroristas, ampliar prisões de segurança máxima e manter delegacias da mulher abertas 24 horas.
Saúde: Ampliar atenção primária, prontuário integrado, telemedicina e parcerias privadas para reduzir filas.
Educação: Priorizar alfabetização, aprendizagem e ensino técnico; concentrar o MEC na educação básica, transferindo o ensino superior para Ciência e Tecnologia.
Infraestrutura e moradia: Ampliar concessões e parcerias público-privadas, acelerar obras e facilitar acesso à habitação de interesse social.
Meio ambiente e energia: Agilizar licenciamento, combater mineração ilegal e separar operações da Petrobras para ampliar concorrência.
Estado e relações exteriores: Combater supersalários, reduzir competências do STF, sair do Brics e transformar o Mercosul em zona de livre comércio.

Fonte: Programa de 2026, 81 páginas: segurança, finanças, trabalho, infraestrutura, energia, educação, saúde, desenvolvimento social e política externa.

Ronaldo Caiado — PSD

Ronaldo Caiado em evento em São Paulo, em janeiro de 2026.
Foto (28/01/2026): Mauricio Tonetto/Secom-RS. Origem: rede social Flickr, via Wikimedia Commons. Recorte do acervo, reproduzido em tamanho reduzido. Licença: CC BY-SA 4.0.
Economia e contas públicas: Conter crescimento das despesas, revisar subsídios e preservar investimentos. Pretende elevar o investimento total da economia para aproximadamente 25% do PIB.
Trabalho e proteção social: Preservar transferências de renda, com redução gradual do benefício após aumento da renda e integração com creche, qualificação e emprego.
Segurança: Criar Ministério da Segurança Pública, enquadrar facções e milícias como terrorismo doméstico e endurecer penas, incluindo propostas específicas contra feminicídio.
Saúde: Preservar o SUS, priorizar prevenção e reorganizar filas por risco clínico, vulnerabilidade e tempo de espera.
Educação: Pactuar alfabetização e matemática até o segundo ano; ampliar tempo integral, formação técnica e valorização docente.
Infraestrutura e moradia: Organizar investimentos em logística, saneamento, habitação e mobilidade, com cooperação federativa.
Meio ambiente e energia: Combater desmatamento e mineração ilegais, desenvolver bioeconomia e articular adaptação climática e segurança energética.
Estado e relações exteriores: Defender cooperação entre Poderes, profissionalização da gestão, transparência orçamentária e diplomacia orientada a comércio e investimentos.

Fonte: Programa de 2026, 100 páginas: temas de estabilização fiscal, desenvolvimento, segurança, educação, proteção social, ambiente e saúde.

Flávio Bolsonaro — PL

Flávio Bolsonaro durante discurso no Senado, em setembro de 2026.
Foto (01/09/2026): Carlos Moura/Agência Senado. Origem: rede social Flickr, via Wikimedia Commons. Recorte do acervo, reproduzido em tamanho reduzido. Licença: CC BY-SA 4.0.
Economia e contas públicas: Cortar gastos, reduzir pelo menos dez ministérios, retomar desestatizações e diminuir impostos sobre consumo e energia.
Trabalho e proteção social: Manter programas sociais, priorizar beneficiários na qualificação e no emprego e facilitar retorno ao benefício, respeitada a elegibilidade.
Segurança: Classificar facções e milícias como narcoterroristas, construir cinco presídios de segurança máxima e reduzir maioridade penal para 16 anos, com responsabilização como adulto aos 14 em crimes graves.
Saúde: Integrar prontuários, ampliar telemedicina, prevenção e atendimento em regiões com escassez de profissionais.
Educação: Reforçar alfabetização, ensino integral e formação técnica ligada ao mercado de trabalho.
Infraestrutura e moradia: Ampliar logística e concessões; retomar o Casa Verde e Amarela, com meta de 2,5 milhões de moradias.
Meio ambiente e energia: Ampliar petróleo, gás e biocombustíveis; agilizar licenciamento e zerar desmatamento ilegal até 2029.
Estado e relações exteriores: Limitar decisões individuais e competências criminais do STF, apoiar fim da reeleição presidencial e retomar adesão à OCDE.

Fonte: Programa de 2026, 76 páginas: eixos Brasil sem Medo, sem Fila, Mais Barato, que Prepara, que Prospera, que Cresce e reformas institucionais.

Análise: onde os projetos se afastam

A comparação revela diferenças mais profundas do que a divisão entre continuidade e oposição. O ponto decisivo é como cada candidatura distribui responsabilidades entre Estado, mercado e famílias — e quem assume os custos da transição.

Na economia, divergem o caminho do ajuste e o destino dos recursos. De acordo com seu programa de governo, Lula combina política industrial e manutenção do arcabouço fiscal. Conforme as sínteses da Agência Brasil, Zema enfatiza a desestatização, enquanto Caiado associa ajuste à preservação do investimento. Flávio também destaca a desestatização em seu programa. Renan combina cortes com direção estatal em setores estratégicos. Cury aposta no empreendedorismo. Reduzir despesas para baixar impostos difere de reorganizá-las para financiar investimentos públicos.

O teste fiscal é comum: demonstrar que as contas fecham mesmo se o crescimento ficar abaixo do esperado. A venda de uma empresa pode gerar receita extraordinária, mas não se repete anualmente. Extinguir ministérios também não elimina, automaticamente, os serviços e obrigações que estavam sob sua responsabilidade. Para Lula, o desafio é compatibilizar expansão e manutenção das políticas com a trajetória da dívida; para os defensores de cortes tributários, é explicar a compensação duradoura da receita perdida.

Na proteção social, a distância é maior do que sugere a expressão “porta de saída”. A substituição da transferência de renda por trabalho comunitário, prevista no plano de Renan e descrita pela Agência Brasil, altera a natureza do benefício. Acrescentar exigências de inserção produtiva, como prevê o programa de Zema, também difere de preservar a transferência e organizar uma transição para o emprego. Para julgar qualquer modelo, é preciso verificar se existem vagas, cursos, creches e transporte, e como serão protegidas crianças, pessoas com deficiência e quem exerce cuidado não remunerado.

Na segurança, existe convergência na integração, mas divergência nos instrumentos. Segundo os programas sintetizados pela Agência Brasil, Lula e Cury acentuam coordenação, inteligência e prevenção. Caiado combina integração com endurecimento penal. Flávio e Zema defendem ampliação da repressão e novas regras de encarceramento. Renan atribui papel central a instrumentos excepcionais de retomada territorial. A diferença não pode ser reduzida a quem promete ser “mais duro”: importa saber como cada desenho melhora investigação, desarticula o financiamento das facções e mantém presença pública depois das operações.

Há limites jurídicos concretos. De acordo com a Constituição, o estado de defesa está sujeito a hipóteses específicas, prazo e controle parlamentar; não autoriza uma suspensão geral de garantias. A autonomia universitária também está constitucionalmente assegurada. Mudanças no sistema de governo, no STF ou na idade de responsabilização penal não podem ser entregues apenas por decisão administrativa do presidente. Além da aprovação legislativa exigida, precisam respeitar os limites constitucionais, inclusive os relativos a direitos fundamentais e separação de Poderes.

Na educação, expansão, desempenho, disciplina e inclusão recebem pesos distintos. Nas propostas de Renan e Cury descritas pela Agência Brasil, destacam-se, respectivamente, a abolição das cotas e a mudança na autonomia universitária, de um lado, e a gestão da emoção na educação, de outro. As medidas de Renan representam mudança institucional expressiva; a abordagem de Cury exige avaliação independente de eficácia, formação profissional e critérios transparentes de contratação. A comparação publicada pela Folha de S.Paulo também identifica diferenças entre as propostas educacionais de Lula e Flávio. A ampliação de redes defendida por Lula deve demonstrar resultados de aprendizagem. O foco gerencial de Zema e Caiado e a formação para o trabalho defendida por Flávio precisam alcançar também estudantes em escolas mais vulneráveis.

No ambiente e na diplomacia, a comparação pede precisão. As metas registradas nos programas de Lula, para desmatamento líquido zero, e de Flávio, para desmatamento ilegal zero, medem coisas diferentes: uma envolve o saldo entre perda e recuperação de vegetação; a outra, a legalidade da supressão. Não basta comparar os anos anunciados. Também é necessário confrontar expansão de petróleo, gás e mineração com compromissos ambientais e proteção das populações afetadas. Na política externa, a saída do Brics proposta por Zema, conforme relatado pela Agência Brasil, contrasta com estratégias de permanência e atuação dentro do bloco.

Onde as propostas podem se complementar

As complementaridades abaixo são uma interpretação da comparação dos programas, e não acordos anunciados pelas campanhas.

Proteção de renda, creche e qualificação podem formar uma política integrada. Preservar a renda durante uma transição, garantir cuidado para crianças e oferecer formação ligada a empregos disponíveis são medidas compatíveis. O resultado relevante é a melhora sustentada da vida da família; a simples redução do número de beneficiários não demonstra, sozinha, superação da pobreza. A integração explícita dessas frentes aparece, por exemplo, no programa de Caiado.

Na saúde, prevenção, gestão de filas e capacidade de atendimento se reforçam. Telemedicina pode aproximar especialistas; prontuários integrados podem evitar repetição de exames; prioridade clínica pode reduzir o risco de agravamento. Essas ferramentas precisam vir acompanhadas de equipes, exames presenciais e tratamento. A complementaridade possível está em articular essas etapas, preservando privacidade e acesso universal. Segundo as sínteses da Agência Brasil sobre os programas de Caiado, Lula e Flávio, a reorganização preventiva do SUS, a ampliação da rede oncológica e o atendimento digital aparecem com diferentes ênfases nas propostas.

Na segurança, prevenção e investigação financeira podem atuar junto ao policiamento. Proteger uma mulher ameaçada, investigar uma rede de lavagem de dinheiro e impedir o controle armado de um bairro são tarefas distintas, mas relacionadas. Uma estratégia completa precisa assegurar presença territorial, apuração qualificada, proteção às vítimas e fiscalização das próprias forças de segurança. A combinação exige coordenação e critérios de resultado, não a soma indiscriminada de poderes excepcionais.

Na economia e nas cidades, eficiência e investimento podem caminhar juntos. Revisar um benefício tributário sem resultado pode abrir espaço para uma obra prioritária; uma concessão pode complementar investimento público; regularização fundiária pode ser associada a saneamento e prevenção de desastres. A escolha deve considerar custo total, qualidade do serviço, tarifa e acesso das famílias de baixa renda.

O eleitor encontra, portanto, objetivos compartilhados e escolhas incompatíveis. Há espaço para combinar políticas específicas, mas não para somar todas as promessas sem examinar seus custos e efeitos. A avaliação mais útil acompanha cinco perguntas: qual problema será resolvido, como a medida funcionará, quanto custará, de quais aprovações dependerá e por qual indicador a sociedade poderá cobrar o resultado.

Nota metodológica: foram consultados os programas de 2026 dos seis candidatos selecionados para este especial, em cópias públicas disponibilizadas pela Agência Brasil, pelo Poder360 e pelo GPS Político. O recorte não pretende abranger todas as candidaturas nem estabelecer um ranking agregado de pesquisas. Dados sociais e econômicos têm períodos de referência diferentes, indicados no texto. As análises são editoriais; não foram realizadas entrevistas com as campanhas. Fotografias de arquivo são identificadas nas legendas, com o ano quando confirmado.